Há quatro dias atrás estive numa das centenas de passeatas de protestos organizados nas mais diversas cidades do Brasil. Mas não como manifestante... e sim saciando a minha tremenda curiosidade. Não moro em uma capital brasileira, mas minha cidade é de porte razoável, é um pólo da educação e da indústria. Passei no apartamento de um amigo, com uma agradável varanda e de lá acompanhei a multidão que se formava naquela praça. Confesso que ter visto aquela multidão de 10 mil pessoas perambulando pelas ruas com cartazes repletos de frases ousadas, como "Tira dinheiro da cueca e enfia no SUS" me fez refletir uma coisa... Será que as pessoas sabem mesmo o por quê dessa luta? Será que eles têm profundo conhecimento do que estão fazendo? Por qual causa real é essa briga? Passeatas repletas de jovens, embalados por músicas como a clássica "Alegria, Alegria" de Caetano Veloso ou a comercial "Vem pra rua" da banda O Rappa são sempre bonitas de se ver, pois lembram episódios de nossa história que foram uma verdadeira revolução, com própositos bem definidos e resultados alcançados, mesmo tendo sangue derramado sobre a bandeira da nação (Edson Luíz). Mas aqueles propósitos estavam tão evidentes que não podiam resultar em mais nada além do que resultaram. Se a onda de nostalgia trouxe tanta coisa antiga de volta, porque não trazer então os protestos?! Ali, debruçado naquela varanda, em meio a todas essas reflexões me aparece uma jovem de 19 anos, prima desse meu amigo dono do apartamento no qual eu acompanhava a movimentação toda... ela chegou próximo de mim, com duas tiras, uma verde e outra amarela, feitas em cada uma das bochechas, provavelmente com tinta guache. Me olhou e disse como alguém que estivesse com muita sede e que acabara de encontrar um oásis: "Essa multidão toda está para lutar contra a PEC 37, contra esse absurdo que é o aumento da passagem da tarifa de ônibus, contra o descaso que é a saúde pública".
"Bom, como funcionário da Saúde Pública Brasileira acho que realmente há muito o que melhorar. Aliás, põe "muito" nisso." choraminguei, algumas horas depois num pequeno e simples jantar que esse mesmo amigo ofereceu a quem estava em sua casa. Alguns minutos após o jantar, reaparece a jovem revolucionária, vinda das ruas como uma nova Joana D'arc pronta para propagar suas idéias para as massas. Após um bom banho ela se apresenta à sala, agora de cara limpa e não pintada. Ela não comia, ela devorava. E durante uma calorosa discussão política sobre o momento atual surge uma pergunta. "Mas afinal de contas, o que é mesmo essa PEC 37?". A autora da pergunta?! A mesma revolucionária de outrora. Minha resposta imediata foi uma erguida involuntária da sobrancelha direita, algo que só consigo fazer quando um fato realmente me surpreende. Surpreso não pela ignorância da pobre... mas por ter confirmado minha certeza: boa parte daquelas pessoas desconheciam a razão da sua luta. E falavam coisas genéricas, tais como "Queremos melhorias na saúde!" ou "Queremos melhorias na educação!"... Lamentável!
A PEC 37 é um absurdo! Um dos maiores que já ouvi falar na minha vida, que é motivo de piada no mundo inteiro. Por mais que o governo federal tente desmistificar isso, o desvio de dinheiro nas obras das arenas é algo que salta aos olhos de qualquer um... É MUITO DINHEIRO. Dinheiro esse que seria muito bem vindo para a saúde e principalmente para a área da educação, que a despeito do que pensa a jovem revolucionária de 19 anos, sofre mais com o descaso.
A noite fui para o meu plantão de clínica. Achei que estaria lotado em virtude das passeatas... querendo ou não é uma exposição à riscos. Mas estava tranquilo. Exceto por um caso em particular: às 22:15 da noite chega uma mãe desesperada com uma criança, um menino de 4 anos e 2 meses. A queixa era um sangramento nasal, importante, cujo tempo de início não sabia estimar com precisão, porém a criança já havia sido internada anteriormente. Na inspeção geral haviam equimoses em membros superiores e na rinoscopia observava-se epistaxe ativa em ambas fossas nasais. Nos antecedentes obstétricos e neonatais, a criança era prematura, nasceu com 1740g. Nos antecedentes patológicos a mãe relata episódios leves de rinite. Como conduta, fiz a limpeza da cavidade nasal da criança com rinosoro e apliquei a compressão nasal, tendo o sangramento cessado após essas manobras.
Ok, eu sei o que vocês estão pensando! Epistaxe é muito comum na pediatria e uma vez tendo essa queixa como a principal um grande leque de possibilidades já pode ser aberto. Bem, o paciente é do sexo masculino, então imediatamente pensei em algum distúrbio hemorrágico como Hemofilia A ou Doença de von Willebrand.
DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS:
1) Hemofilia A
2) Doença de von Willebrand
Quando indaguei a mãe ela afirmou que não havia nenhum outro familiar acometido por sangramento nasal ou sangramento de qualquer outra natureza (incluindo hematomas e petéquias). Eu solicitei um hemograma com contagem de plaquetas. Só lembrando, não achei a criança pálida, mas o hemograma é a conduta mais preconizada diante de uma epistaxe. Como eu estava suspeitando desses distúrbios de coagulação, solicitei o fator de von Willebrand, o tempo de protrombina e tromboplastina parcial ativado. No hemograma a hemoglobina veio 12 mg/dL. Os valores plaquetários também estavam absolutamente normais (200.000), não haviam alterações no tempo de protrombina e tromboplastina parcial ativado e pesquisa do fator de von Willebrand veio negativa.
Conversei com a criança e indaguei a possibilidade de trauma local. Tanto a mãe quanto a criança, que por sinal era bastante esperta, negaram qualquer evento traumático. Indaguei sobre os hematomas nos MMSS e a mãe afirmou que ele havia caído de 4 degraus na casa da tia havia +/- 1 semana. Ela negou que nesse episódio a criança tivesse machucado o nariz e que o episódio prévio de epistaxe foi anterior a essa queda. Comecei a repensar meu leque de DD's:
DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS:
1)
2)
3)
4) Medicamentos
5) Inflamações e/ou infecções
6) Parasitoses
7) Esporádica
Resolvi pedir o parecer do Otorrinolaringologista de plantão. Havia possibilidade até de ser uma neoplasia e eu preferi pecar por excesso. Conversei com a criança sobre a possibilidade de alguma parasitose. Duas parasitoses podem sabidamente cursar com epistaxe: Ascaridíase e Miíase. Miíase estava na cara que não era! E se fosse ascaridíase ela teria manifestações intestinais ou hepatomegalia, febre e eosinofilia. O menino não tinha nada disso. Com relação à medicações confesso que havia esquecido de fazer essa importante pergunta durante a anamnese. A mãe negou uso de medicações.
DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS:
1)
2)
3)
4)
5) Inflamações e/ou infecções
6)
7) Esporádica
O otorrino do hospital para o qual trabalho avaliou a criança. Ela não observou nada que pudesse justificar o quadro. A rinite, por si só, não justificaria um quadro de epistaxe. Conversamos sobre a possibilidade de considerar aquela epistaxe como Esporádica, e assim o fizemos.
DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS:
1)Hemofilia A
2)Doença de von Willebrand
3)Traumas
4)Medicamentos
5)Inflamações e/ou infecções
6)Parasitoses
7) Esporádica
Vamos agora fazer algumas considerações. Epsitaxe é comum em dois grupos populacionais: Crianças e Idosos. Existe um tripé relacionado a epistaxe e que você sempre tem que pensar: Alterações na mucosa, patologias vasculares ou desordens de coagulação. A cavidade nasal é extremamente vascularizada e qualquer sangramento pode chamar a atenção porque esses vasos são oriundos das carótidas externa e interna. A área de Kiesselbach é a região vascular anterior e que está mais envolvida nos episódios de sangramento nasal na criança. Um fator importante da epistaxe esporádica é seu fácil controle e seu fluxo lento. Além disso, normalmente a criança está euvolêmica... porém ela pode estar agitada, pelo impacto que o sangramento causa nela e nos pais! Crianças, como todos sabem, absorvem as características dos pais facilmente.
Gente, diante de um quadro de epistaxe, independente se é da área de Kiesselbach ou uma epistaxe posterior devemos sempre solicitar um hemograma com contagem de plaquetas. A história medicamentosa e familiar de sangramentos são de extrema importância. Muitos médicos e estudantes questionam os exames de imagem... eles são particularmente eficientes em casos isolados. Por exemplo: RX dos seios da face são excelentes métodos de pesquisa de faturas do osso nasal ou presença de corpos estranhos (fato também muito frequente em pediatria). A nasofibroscopia fica reservada para a localização de corpos estranhos ou de sangramentos de difícil execução. Exames mais avançados como Tomografia Computadorizada e Ressonância Magnética ficam reservadas para casos onde suspeita-se de algum tumor ou anomalia anatômica. Um tumor que pode sangra abundantemente é o Angiofibroma da Nasofaringe... porém esse ocorre quase que exclusivamente em adolescentes do sexo masculino.
Por fim, a conduta diante de um caso de epistaxe é assegurar a permeabilidade das vias aéreas. Coloque o paciente sentadinho e limpe a cavidade com rinosoro. A aplicação de gelo no dorso nasal e a compressão manual por 5 a 10 minutos também é muito eficiente. Incline a criança para frente enquanto realiza essas manobras. Se necessários podemos usar vasoconstrictores locais também. Os tamponamentos ficam reservados a casos mais graves. É necessário muita habilidade na realização da técnica e que o paciente seja literalmente paciente. É óbvio que o procedimento é feito sob anestesia e com cobertura antibiótica.
Em todo caso... o que não pode faltar diante de um quadro de Epistaxe e de um protesto no Brasil é uma história bem feita, pois existem muito mais coisas por trás do que podemos imaginar.
1)
2)
3)
4)
5)
6)
7) Esporádica
Vamos agora fazer algumas considerações. Epsitaxe é comum em dois grupos populacionais: Crianças e Idosos. Existe um tripé relacionado a epistaxe e que você sempre tem que pensar: Alterações na mucosa, patologias vasculares ou desordens de coagulação. A cavidade nasal é extremamente vascularizada e qualquer sangramento pode chamar a atenção porque esses vasos são oriundos das carótidas externa e interna. A área de Kiesselbach é a região vascular anterior e que está mais envolvida nos episódios de sangramento nasal na criança. Um fator importante da epistaxe esporádica é seu fácil controle e seu fluxo lento. Além disso, normalmente a criança está euvolêmica... porém ela pode estar agitada, pelo impacto que o sangramento causa nela e nos pais! Crianças, como todos sabem, absorvem as características dos pais facilmente.
Gente, diante de um quadro de epistaxe, independente se é da área de Kiesselbach ou uma epistaxe posterior devemos sempre solicitar um hemograma com contagem de plaquetas. A história medicamentosa e familiar de sangramentos são de extrema importância. Muitos médicos e estudantes questionam os exames de imagem... eles são particularmente eficientes em casos isolados. Por exemplo: RX dos seios da face são excelentes métodos de pesquisa de faturas do osso nasal ou presença de corpos estranhos (fato também muito frequente em pediatria). A nasofibroscopia fica reservada para a localização de corpos estranhos ou de sangramentos de difícil execução. Exames mais avançados como Tomografia Computadorizada e Ressonância Magnética ficam reservadas para casos onde suspeita-se de algum tumor ou anomalia anatômica. Um tumor que pode sangra abundantemente é o Angiofibroma da Nasofaringe... porém esse ocorre quase que exclusivamente em adolescentes do sexo masculino.
Por fim, a conduta diante de um caso de epistaxe é assegurar a permeabilidade das vias aéreas. Coloque o paciente sentadinho e limpe a cavidade com rinosoro. A aplicação de gelo no dorso nasal e a compressão manual por 5 a 10 minutos também é muito eficiente. Incline a criança para frente enquanto realiza essas manobras. Se necessários podemos usar vasoconstrictores locais também. Os tamponamentos ficam reservados a casos mais graves. É necessário muita habilidade na realização da técnica e que o paciente seja literalmente paciente. É óbvio que o procedimento é feito sob anestesia e com cobertura antibiótica.
Em todo caso... o que não pode faltar diante de um quadro de Epistaxe e de um protesto no Brasil é uma história bem feita, pois existem muito mais coisas por trás do que podemos imaginar.



